As incertezas no desenvolvimento de sistemas

Posted by Raphael Roale on setembro 18, 2008
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O princípio da incerteza em física diz que o ato de observar eventos sub-atômicos modifica estes eventos. Há também um princípio de incerteza na informática – o ato de fornecer o que o usuário final diz que necessita, modifica sua percepção dessas necessidades e, portanto, o simples ato de implementar um sistema modifica os requisitos para este sistema. Em outras palavras, a própria solução do problema modifica o problema. Quem nunca passou por isso?

Mas note que apenas quando existir um produto definido e implementado é que haverá a real compreensão das limitações e dos desafios: a imaginação é levada à níveis freudianos e pensa-se no que poderia ter sido feito. Após a implementação, as pessoas têm uma base comum e “concreta” para discussão do problema, elas conversam no cafezinho sobre o que fazem bem ou mal, o que poderiam fazer melhor e como poderiam se beneficiar e chegar em casa mais cedo ao fim do dia.

À medida que um sistema de informação se torna “vivo”, passa a sofrer inúmeras intervenções – nem sempre previsíveis. De uma hora para outra descobre-se ser possível levar o trabalho do monitor de uma pessoa para outra; subitamente as pessoas podem fornecer um serviço ou informação que antes era tão difícil e que elas ignoravam, e a demanda para este serviço acaba por crescer: Outra pessoa vê a informação que antes estava escondida; outras ainda, querem menos tipos de relatórios ou querem que o computador faça cálculos que não estavam nos requisitos do sistema.

O sistema de informação causa nas pessoas muitos efeitos psicológicos imprevistos. Ele pode fazer com que algumas pessoas sintam-se marginalizadas e ressentidas, enquanto que outras se sentem poderosíssimas ao usarem a solução. O sistema de informação modifica a interação organizacional e os padrões de poder dentro de uma empresa ou grupo.

Na maioria das vezes, as funções desempenhadas por um sistema são apenas uma pequena parte daquelas que os usuários acharão necessárias poucos meses (ou semanas) após a instalação. Essas novas funções são mais valiosas porque são baseadas na experiência – o sistema torna visível as regras que podem ser modificadas para que melhor se adaptem as necessidades. Torna-se possível negociar os problemas que eram antes ignorados. É muito comum o caso do usuário final que não sabe o que quer até que consegue ter e, quando obtém, quer alguma coisa diferente.

Em geral se tem uma boa idéia dos limites gerais entre o sistema e o ambiente, mas algumas vezes aparece uma “área cinzenta”, aberta para negociações, uma área na qual não se está muito seguro, ainda não se pensou, tem-se algumas idéias pré-concebidas que precisam ser analisadas, ou tudo isso em conjunto. Mais ainda, a flexibilidade de um sistema de informação impede-o de ser muito especializado e rígido, pois há a possibilidade de que mudanças na lei; nas necessidades da Empresa e nas necessidades de um novo usuário, por exemplo, venham a modificar e até a arruinar completamente todo um trabalho.

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